19
Sáb, Ago

Missões
Fontes

A motivação fundamental da missão de Jesus Cristo foi a compaixão, especialmente pelos pobres. Já nos tempos do Antigo Testamento, Deus tinha se revelado como o Deus dos oprimidos, “Pai de órfãos e juiz de viúvas […] Deus faz que o solitário viva em família; liberta aqueles que estão presos em grilhões” (Sl 68.5-6). Quando passamos para o Novo Testamento, descobrimos que o Deus que se revela em Jesus Cristo é o Deus que fica do lado dos fracos, dos vulneráveis, das vítimas da injustiça. Isto vai ao encontro da definição de sua missão no seu “Manifesto de Nazaré”, segundo o Evangelho de Lucas 4.18-19. E a descrição nos Evangelhos de como levou a cabo o seu ministério mostra claramente que a sua compaixão estava orientada principalmente aos pobres, aos famintos, aos enfermos, às prostitutas, aos cegos, aos mancos, aos coxos, aos cobradores de impostos… Em síntese, estava orientada às “não pessoas” da sua sociedade.


A compaixão não é uma simples pena pelos que sofrem. É muito mais: é amor profundo, ternura, identificação com os necessitados, mas identificação que move à ação em busca de solução para os seus problemas. Como tal, exige contato pessoal com os necessitados — o tipo de contato que Jesus tinha com as multidões e fazia com que ao vê-las tivesse compaixão por elas, “porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36). Em outras palavras, careciam de líderes que se ocupassem delas e lhes provessem um senso de direção com vistas a transformar a sua situação.


Como no tempo de Jesus, a missão cristã hoje se realiza em um contexto de multidões “cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor”. Vivemos num mundo de injustiça institucionalizada. Em quase todos os países, o poder socioeconômico e político está nas mãos de uma elite totalmente indiferente às necessidades das grandes maiorias, uma elite que usa o poder para salvaguardar os seus próprios interesses. Como consequência, nas palavras de Bernardo Persbergite, “Duzentas mil pessoas, 1/35.000 da população total do mundo, são os donos atualmente […] de quase metade do PIB mundial. Em contrapartida, 50% da população mundial (3,5 bilhões de pessoas) têm apenas 1% do PIB. Esses 50% ganham menos de dois dólares por dia. Estão abaixo da linha da pobreza”.


Infelizmente, no mundo moderno, especialmente no contexto urbano, inclusive entre nós que professamos a fé cristã, com muita frequência reina a apatia para com “os párias da terra” (como os denomina Persbergite), devido à segmentação da sociedade em classes sociais. Muitos de nós, como membros da classe média, pertencemos a uma minoria privilegiada, com pouca oportunidade de intercâmbio com as pessoas pobres. O que precisamos, em primeiro lugar, é abrir os olhos para vermos os necessitados e sermos movidos a uma compaixão comparável à de Jesus.


No entanto, quando temos consciência da opressão em que vivem os setores pobres da população e desejamos nos somar àqueles que têm “fome e sede de justiça”, precisamos, em segundo lugar, reconhecer a importância de ir além da caridade. John Perkins, um afro-americano evangélico que por longos anos foi usado por Deus num ministério que encarna a compaixão de Deus manifestada em Jesus Cristo, tem muito a dizer sobre isso. Em resumo, a sua ênfase central é que as mudanças mais profundas e permanentes em âmbito pessoal e comunitário resultam do que ele denomina uma redistribuição do poder. Sob esta perspectiva, os pobres não são meros recipientes de ajuda filantrópica, mas sim participantes ativos nos processos de transformação.
Os ingredientes da missão são a palavra e a ação inspiradas pela compaixão com o poder do Espírito de Deus, que é o Espírito de Jesus Cristo.


:: C. René Padilla (Traduzido por Wagner Guimarães) – Ultimato

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